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A formação do orientador profissional e do educador

Por Alba M. R. Sewaybricker Benito (2001)


Objetivo

Meu objetivo é compartilhar com vocês um pouco da experiência que muito tem me enriquecido no desenvolvimento de dois Cursos: (1) Orientação Profissional – Abordagem Clínica, voltado para psicólogos clínicos de orientação psicanalítica que atuam junto a adolescentes e (2) A Escola e a Orientação Profissional, indicado para professores, pedagogos e psicólogos escolares. Além de trocar ideia espero também estimulá-los para práticas psicoprofiláticas provenientes da integração entre a Psicologia e a Educação.

Trata-se de um curso especialmente voltado a psicólogos clínicos que querem focalizar o tema da escolha profissional consciente em seus atendimentos. A duração do curso é de um ano, com 50 horas, distribuídas quinzenalmente nos meses letivos, para pequenos grupos de no máximo oito pessoas.

Temas referentes ao desenvolvimento emocional, às peculiaridades da identidade adolescente (Aberastury, A y Knobel, M; Levisky, D.L.), ao processo de formação da identidade profissional entre outros são profundamente estudados durante o primeiro semestre. A segunda metade do curso está voltada para o treinamento das técnicas facilitadoras (Lucchiari, D. H. P. S.) para o trabalho das questões da escolha profissional em Orientação Profissional ocorrendo também a supervisão do atendimento de alguns alunos durante o 2º semestre.

As etapas

Inicialmente, os momentos do desenvolvimento humano são associados a algumas obras de arte que ajudam a trazer à tona angústias e reflexões inéditas, sempre muito ricas para todos. Por exemplo, ao tratar da formação da identidade, discorremos sobre os elos do processo de dessimbiotização, da infância e da adolescência (Levenfus, R. S.) e seus desdobramentos nas relações familiares (Levisky, D. L.), na escola e com o orientador profissional especificamente.

Com recursos como estes expostos nos slides, procuro desenvolver uma linguagem comum a todos os profissionais participantes do curso. A prática clínica dos membros do grupo e da coordenadora ilustra com o cotidiano estes fenômenos tão reveladores do processo de escolher uma profissão.

O caráter reparatório de uma escolha profissional (Bohoslavsky, R.; Nascimento, R. S. G. F.) é exaustivamente estudado ao lado da tolerância à frustração, do pensamento (Bion, W. R.), da criatividade (Winnicott, D.W.) e do trabalho. Além da teoria e prática psicanalítica e de orientação profissional que me acompanham nesses 22 anos de exercício da profissão, me valho de filmes, uns atuais e outros clássicos, para discutir e sensibilizar os colegas para as questões relativas ao apego à realidade e às possibilidades de elaboração. Aproveito para também salientar que a escolha profissional na juventude é apenas a primeira de uma série de escolhas de várias naturezas que ocorrerão ao longo da vida, inclusive no plano profissional.

Passamos a estudar o papel do orientador profissional (Lehman, Y. P.) e as expectativas do orientando e sua família. O primeiro aspecto a ser estudado é a orientabilidade tanto no que tange ao orientador como quanto ao paciente. O segundo ponto, uma vez indicada a orientação profissional, é a conveniência de um trabalho em grupo ou individual (Carvalho, M. M. M. J.).

Em seguida passamos a vivenciar algumas das técnicas facilitadoras (Levenfus, R. S.; Lucchiari, D. H. P. S.) e comentá-las em sala de aula. Este momento é especialmente cuidado pois nada de constrangedor deve ser revelado uma vez que o grupo está reunido para estudar e não para se tratar. Acredito que por esse cuidado todo, esta prática tem sido referida como muito valiosa para os alunos.

Neste momento do curso, o grupo costuma se mostrar interessado em atender. Criam-se condições para que uma dupla desenvolva o trabalho com um grupo de estudantes, voluntariamente e, se houver interesse, um trabalho individual também pode ocorrer. Ambos os atendimentos serão acompanhados em parte de cada aula do segundo semestre. Assim, todos podem se beneficiar da experiência daqueles que iniciam os atendimentos de modo supervisionado. É aí que as dúvidas emergem com mais clareza e os fenômenos observados clinicamente podem ser revisados e apreciados por todos os alunos do grupo.

A parte final do curso se volta para o caráter psicoprofilático e promotor de saúde desse tipo de trabalho (Benito, A. M. R. S.). Penso que grande parte do trabalho do psicólogo é justamente esta: promover saúde ou ainda, atuar em momentos de crise para que a doença não se estabeleça. E o orientador profissional atua nestes dois sentidos.

Vindo ao encontro desta proposta psicoprofilática, estuda-se ainda outros campos onde o orientador profissional pode atuar: escolas, empresas, instituições que congregam jovens ou pessoas que atravessam mudanças significativas em sua vida profissional como recolocação, aposentadoria, início da vida profissional etc.

As dificuldades e as realizações

O curso (1) Orientação Profissional – Abordagem Clínica tem lidado com a heterogeneidade dos alunos (alguns menos experientes do que outros) de um modo cooperativo. Acredito que a roupagem dada aos conceitos psicanalíticos trabalhados tem atraído o interesse de todos mesmo que não sejam novos para alguns dos alunos. A Abordagem Clínica de trabalho das questões vocacionais atrai a todos, mesmo aos mais experientes na clínica psicanalítica e isto acaba homogeneizando o grupo de alunos.

Acredito que multiplicando o saber, criando espaços para discussões, o jovem poderá encontrar um ambiente mais favorável para se desenvolver. Um dos locais privilegiados para implementar projetos desta natureza é a escola. É com este intuito que tenho também oferecido um curso para educadores que queiram discutir e promover melhores condições para que seus alunos escolham consciente e autonomamente sua profissão. Este curso é semanal, com duração de 20 horas, em pequenos grupos de até 8 elementos.

As etapas

Os primeiros módulos são semelhantes nos dois cursos, variando apenas o grau de aprofundamento teórico. Para os educadores, aspectos clínicos e psicopatológicos não são tão detalhados. No entanto, a adolescência (Aberastury, A. y Knobel, M.; Levisky, D. L.) é muito trabalhada e os impasses gerados nas relações com os adultos próximos vêm sempre à tona através do relato das experiências dentro do ambiente escolar que os próprios alunos trazem. Neste curso também tenho recorrido aos paralelos com as obras de arte e filmes para discutir a identidade adolescente e o processo de escolha profissional.

Retomando os três grandes campos de atuação do Orientador Profissional: o educacional, o clínico e o organizacional, enfatizo aquele ao qual o curso se destina refletindo sobre os papéis da escola e qual seria o lugar da orientação profissional dentro da mesma.

Algumas técnicas de dinâmica de grupo são estudadas e propostas para se desenvolver em grupos na escola (Levenfus, R. S.). Outras atividades são sugeridas para serem desenvolvidas junto às aulas regulares. É recomendável o trabalho contínuo com a equipe docente e com os pais, se a escola assim se dispuser (Benito, A. M. R. S.). Para isto, sugiro temas como: as próprias escolhas; sonhos, realizações e frustrações; a identidade adolescente; vestibular e evasão por má escolha; empregabilidade e tendências.

Ao tratar do aspecto promotor de saúde enfatizo o papel de moderador da crise adolescente que o orientador profissional e os educadores têm.

Discute-se durante o curso um projeto a ser desenvolvido por cada educador de cada escola adaptando os conteúdos estudados e as experiências relatadas à realidade de sua instituição. Estes projetos são individualmente supervisionados por mim e, posteriormente, apresentados ao grupo que irá comentar e se enriquecer com as várias propostas que surgirem.

As dificuldades e as realizações

A implementação deste curso para educadores tem sido uma tarefa mais árdua mas muito gratificante também. Afinal é um modo de ampliar o acesso aos conceitos psicanalíticos e suas aplicações práticas.

Uma das dificuldades provém do fato inegável que cada adulto que se defronta com os fatores que interferem na escolha profissional estará repensando sua própria escolha ou, no mínimo, se lembrando dela. Isto não é fácil, muito pelo contrário! É mobilizador e é angustiante. É preciso acertar na dose ao trabalhar questões tão profundas em grupos heterogêneos como os que frequentam um curso desta natureza.

Conclusão

Tenho tido um ótimo retorno de meus colegas e dos educadores com quem já trabalhei e isto me estimula a continuar nesta empreitada. Cada ano, cada um dos cursos – para clínicos (1) ou para educadores (2) – está sendo revisado e seu formato vai se renovando sempre. Penso que a troca sempre enriquece e os obstáculos são superados quando o clima para o encontro é construtivo. Foi exatamente por isto que eu quis compartilhar esta experiência com vocês e me enriquecer com os colegas da mesa e com seus comentários.

Obrigada pela atenção

Bibliografia

  1. Aberastury, A. y Knobel, M.La adolescencia normal, Buenos Aires, Paidós, 1971.
  2. Benito, A. M. R. S.Contribuições da psicanálise aos Programas de Orientação Profissional nas Escolas – trabalho apresentado no IV Simpósio Brasileiro de Orientação Vocacional & Ocupacional e I Encontro de Orientadores Profissionais do Mercosul, Florianópolis, 1999.
  3. Bion, W. R.Estudos Psicanalíticos Revisados, Rio de Janeiro, Imago, 1988.
  4. Bohoslavsky, R.Orientação Vocacional: a estratégia clínica, São Paulo, Martins Fontes, 1977.
  5. Carvalho, M. M. M. J.Orientação Profissional em grupo – Teoria e Técnica, Campinas, Workshopsy, 1995.
  6. Lehman, Y. P.O Papel do Orientador Profissional – revisão crítica, in Bock, A. M. B. et al – A escolha profissional em questão, São Paulo, Casa do Psicólogo, 1995.
  7. Levenfus, R. S. et alPsicodinâmica da Escolha Profissional, Porto Alegre, Artes Médicas, 1997.
  8. Levisky, D. L.Adolescência: Reflexões Psicanalíticas, Porto Alegre, Artes Médicas, 1995.
  9. Lucchiari, D. H. P. S.Pensando e vivendo a Orientação Profissional, São Paulo, Summus, 1993.
  10. Nascimento, R. S. G. F.Sublimação, Reparação e Escolha Profissional, in Bock, A. M. B. et al – A escolha profissional em questão, São Paulo, Casa do Psicólogo, 1995.
  11. Winnicott, D. WO Brincar e a Realidade, Rio de Janeiro, Imago, 1975.

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