Contribuições da psicanálise aos programas de orientação profissional dentro das escolas
Trabalho apresentado no IV Simpósio Brasileiro de Orientação Vocacional & Ocupacional e I Encontro de Orientadores Profissionais do Mercosul, Florianópolis, 1999.
Por Alba M. R. Sewaybricker Benito
O orientador profissional com formação psicanalítica pode levar para as escolas significativas vivências sobre o desenvolvimento e os conflitos humanos. Naturalmente, o uso da experiência clínica e do conhecimento teórico se dará dentro de um novo contexto – a escola – visando facilitar a comunicação entre alunos, pais e equipe docente.
Neste novo contexto, o psicólogo trabalhará como um moderador da crise normal da adolescência, tentando manter a angústia em níveis suportáveis, instrumentalizando-a como um motor para o pensamento, a ação, o planejamento do futuro, de modo que o jovem seja o sujeito de sua própria escolha profissional.
Deverá também sensibilizar os pais e a equipe docente para a nova concepção de homem proposta por Bohoslavsky, cujo modelo clínico de atuação traz algumas diretrizes para este trabalho psicoprofilático a ser desenvolvido nas escolas. Como? Desenvolvendo potencialidades, promovendo o amadurecimento, reconhecendo os fatores intrapsíquicos presentes no processo de escolha profissional, facilitando a conquista de uma identidade ocupacional autêntica, autônoma e consciente.
Hoje, a escolha profissional é vista de uma maneira ainda mais dinâmica, sendo necessária a constante atualização daqueles que convivem com o jovem. Isto inclui contato e divulgação dos vários veículos de informação (jornais, revistas, livros, YouTube, Internet etc.), referentes aos cursos, às alterações no mercado de trabalho e ao processo de formação da identidade.
A psicanálise contribuirá para a prática de um ensino mais criativo, dinâmico e integrado, consciente dos outros elementos presentes na vida deste mesmo jovem que escolhe sua profissão, tais como vínculos amorosos, início da vida sexual, relações familiares alteradas e confusas, pressões dos grupos sociais.
Isto, sem dúvida, mobiliza muito os adultos (pais ou educadores), no entanto, com bom senso e criatividade, há muito por fazer.
Introdução
Descreverei, inicialmente, algumas das principais contribuições do pensamento psicanalítico para a compreensão do adolescente e sua problemática vocacional. A seguir, apontarei como estes conceitos se aplicariam no desenvolvimento de programas de orientação profissional dentro das escolas.
1. Os acréscimos iniciais da Psicanálise para a compreensão da problemática vocacional
A psicanálise britânica influenciou muito o trabalho de Bohoslavsky [1].Desde então,temos nos detido nas variáveis intrapsíquicas presentes no processo de escolha profissional. Aquilo que anteriormente se acreditava ser inato, passa a ser visto como um processo psico-social. Há uma nova visão de homem: um homem que é sujeito e não mais objeto, que desenvolve sua identidade ao longo da vida e não tem uma vocação inata, um homem com direito de escolher autonomamente quem ele quer vir a ser e não apenas de saber quem ele é.
É claro que esta visão se contrapõe ao uso dos testes psicométricos como solução para a problemática vocacional. Eles, se tornam meros instrumentos de diagnóstico e dispensáveis, muitas vezes.
Há ainda o ambiente interferindo neste processo que o sujeito da escolha vive. É do intercâmbio dessa realidade externa com a interna que vai-se delinear o grau de saúde mental e, consequentemente, a qualidade de vida desta pessoa.
O psicanalista dentro da escola pode debater este tema, esta visão de homem mais atual, com todos os grupos se valendo de técnicas adequadas a cada um deles. É possível, por exemplo, propor que os alunos selecionem artigos sobre o tema (em revistas, jornais, livros ou na Internet) e tragam para discussão em matérias como Português, Filosofia ou Psicologia. Pode também estimular este debate junto da equipe pedagógica, do corpo docente e dos pais – respeitando as características de cada um destes grupos.
2. A compreensão do desenvolvimento emocional do adolescente
A adolescência é um fenômeno bio-psico-social e é impossível isolar apenas um destes aspectos. Ocorrem, simultaneamente: as mudanças corporais, os lutos pelas perdas da infância (do corpo, da bissexualidade, da dependência simbiótica dos pais e da identidade infantil), o processo de dessimbiotização e a busca de uma identidade. Estes conceitos foram desenvolvidos por Aberasturye Knobel [2].
Atualmente, Levisky [3]ampliou estes conceitos mas se manteve a clara noção da existência de uma identidade adolescente caracterizada por:
- Tendência grupal
- Turbulência interna
- Flutuações de humor
- Condutas contraditórias
- Revisão dos valores e da religiosidade
- Atitude social reivindicatória
- Ambivalência dual
- Incremento da intelectualização e do fantasiar
- Busca da identidade (e escolha profissional)
- Evolução da sexualidade (do auto-erotismo à heterossexualidade)
O principal objetivo da divulgação destes conceitos é que não se rompa o diálogo com o jovem. Mas é preciso frisar ainda que este diálogo também tem suas peculiaridades pois não se trata de uma conversa madura, respeitosa e inteiramente lúcida. Levisky [3]assinala que esta conversa deverá ser acompanhada de muita tolerância por parte dos adultos e da plena consciência de que talvez não sejam sequer ouvidos ou de que terão, com freqüência, suas falas muito distorcidas. Isto ocorre porque muitas vezes predominam entre os jovens as ansiedades persecutórias e os correspondentes mecanismos primitivos de cisão, negação, identificação projetiva e as idealizações.
Winnicott [4]salienta que o ambiente precisa continuar existindo para que o jovem se rebele contra ele e continue podendo utilizá-lo. Isto não quer dizer que os adultos devam aceitar tudo, mas sim que eles dêem um suporte firme, amoroso, confiante e confiável.
Acredito que estas noções básicas sobre a adolescência podem diminuir o abismo que muitas vezes se instala em casa ou no ambiente escolar. É claro que as dificuldades existem, mas se os adultos forem sensibilizados para a peculiaridade desse adolescente tantas vezes incômodo e perturbador, eles poderão abrir canais de comunicação e troca mais genuínos e criativos.
Caberá ao psicanalista desenvolver estes aspectos junto da comunidade escolar através de debates, grupos de discussão e esclarecimento. Há livros, músicas, quadros, esculturas e filmes que tocam neste ponto e poderiam ser utilizados de modo a estimular o diálogo e a troca das experiências entre os adultos e os jovens.
3. A conquista da identidade tem suas raízes na infância
A partir da puberdade os abalos sofridos são enormes: são intensas as mudanças corporais e as alterações de papéis. O adolescente passa a viver a urgente busca de um lugar, um espaço para viver, a sua identidade enfim. Isto tudo fica presente por um longo período da vida e as oscilações durante este processo são enormes, o que acaba deixando os adultos que convivem com os jovens muito perdidos e desorientados.
Se lembrarmos que os processos de separação-individuação vividos desde o nascimento ganham força na adolescência e que aquilo que Mahler [5]descreveu a partir das relações mãe-bebê se aplica agora, veremos que o que ocorre aqui são as mesmas idas-e-vindas típicas daquele período inicial da vida. Penso que recordar esse período da vida dos filhos (alunos) irá sensibilizar os pais (e equipe) para a vulnerabilidade que está presente e como tudo isto é conflitante, difícil, mas extremamente natural. Ainda como revivência, há leituras, obras de arte e fotos que podem ser estimulantes e o psicanalista saberá como trabalhar com os adultos este tema tão delicado.
Acredito que com uma maior compreensão destes aspectos, os adultos que convivem com os jovens poderão desenvolver sua capacidade de acompanhar tais movimentos ambíguos e ambivalentes, tendo ainda a noção que o processo de dessimbiotização nunca se dará por completo e que portanto, eles mesmos estarão revivendo os próprios processos de individuação.
Através da presença sensível, estável, coerente e continente dos pais é que o jovem alcançará um lugar no mundo, fará seus planos e se desenvolverá.
4. A angústia como promotora do desenvolvimento
A angústia é necessária para que haja desenvolvimento. É a partir das frustraçõesque o ser humano pensa, cria e age modificando a realidade. Bion [6]descreveu isto muito bem quando falou da tolerância à frustração e da capacidade para pensar – fundamentais para o desenvolvimento desde os primeiros momentos de sua existência.
Por outro lado, quando os níveis de angústia forem insuportáveis e/ou a tolerância à frustração for muito baixa, o desenvolvimento poderá se deter. É nessas situações que o jovem tende a se agarrar à onisciência e agir como se já soubesse tudo. Apesar do incômodo que este gesto provoca, sabemos que ele reflete o quanto o jovem está paralisado pelos altos níveis de angústia que vive. É possível também que ele delegue o papel de sujeito da escolha a alguém, se distanciando do conflito que o imobilizou, se apegando a soluções mágicas ou idealizadas.
Vemos então que para que haja desenvolvimento e ele conquiste a identidade, é necessário lidar com a angústia, tolerar a frustração, fazer uso do pensamento e da simbolização, ampliando assim o contato com as realidades interna e externa.
Como auxiliar neste processo dentro da escola? Sendo continente, ajudando a pensar, procurando manter a angústia em níveis suportáveis e produtivos (criativos e elaborativos).
Se o adulto se oferece com sua reverie,recebe as projeções do adolescente e as transforma mesmo que minimamente de modo que possam ser pensadas, ele estará trabalhando no sentido de facilitar o enfrentamento da realidade e, portanto evitando que o jovem fuja dela.
5. Processos reparatórios, modalidades de relação e defesas envolvidas
É importante notar ainda que no processo de formação da identidade profissional há um chamamento interno (vocare), um objeto fantasiadamente destruído que clama por reparação. E, da qualidade de reparação que ocorrer, dependerá o maior ou menor grau de saúde mental daquele que escolhe e, portanto, daquele que no futuro, trabalha.
Como já foi mencionado acima, quando o jovem escolhe, precisa estar em contato com seu conflito, sua angústia, com o movimento reparatório inerente à formação da identidade ocupacional.
Levenfus [7]assinala que esta reparação nunca se dará por completo e que para ela seja autêntica é necessário levar em consideração a realidade interna e a externa, atendendo aos chamados internos sem desconsiderar o ambiente. Deste modo poderá, no futuro, desempenhar sua atividade profissional de uma maneira criativa e com prazer, fazendo um bom uso do que Winnicott [8]descreveu como espaço potencial.
O psicólogo dentro da escola poderá se valer de toda e qualquer iniciativa dos estudantes no sentido de sensibilizar o grupo para a problemática vocacional – que é comum a todos, embora lidem de modo diferente com ela.
Será conveniente ainda que tente viabilizar o contato com a realidade, estimulando a busca de informação sobre as carreiras e os cursos nos vários veículos que dispomos: jornais, revistas, livros, YouTube, Internet.
Não se trata de fazer por eles – o que é uma tendência dentro de uma modalidade de relação fílio-paterna –mas sim, de acompanhá-los nesta busca e discutindo-as com eles.
É preciso alertar a equipe docente para as possíveis defesas frente aos conflitos que seus alunos vivem. Muitas vezes o jovem se apega a uma idéia fixa do que fazer do seu futuro e desiste de viver os conflitos inerentes a esta escolha. Pode ainda buscar uma solução mágica (falsa, por definição) a qual se apegará como se fosse a salvação.Muitas vezes os testes se prestam a este tipo de idealização e os alunos precisam ser esclarecidos quanto aos possíveis enganos que virão a partir desta iniciativa. Outra possibilidade é de que confundam interesse ou habilidade com escolha. Escolher uma profissão vai além de detectar aquilo que interessa o jovem ou aquilo em que ele tem mais facilidade. Trata-se de escolher o que fazer, um plano para seu futuro, um ganha-pão que lhe dê prazer. Portanto, se a equipe estiver preparada para orientar essas coisas no dia-a-dia, na classe ou no corredor, estará auxiliando muito seus alunos para que tenham um futuro mais feliz.
6. Conversando com a equipe
O orientador profissional poderá estimular e preparar a equipe para desenvolver temas onde a atenção do jovem se volte para si mesmo e para a realidade do mercado de trabalho, das opções de carreira, das tendências etc. Penso que estas questões poderão ser desenvolvidas em todas as matérias, dependendo fundamentalmente da disponibilidade do professor responsável por elas.
Não vejo como o psicólogo poderia trabalhar se não integrado com a equipe, tanto os professores como os pedagogos da escola. Este seria o único modo de clarear os objetivos deste programa e de aproveitar os recursos já existentes dentro da própria comunidade escolar. Penso que assim o ambiente se tornaria mais propício para o bom desenvolvimento dos alunos e de uma maneira mais integrada. É muito pouco esperar que um bom índice de aprovação no vestibular seja o único objetivo de uma escola. Afinal, se isto fosse suficiente, não haveria tanta evasão no primeiro ano das faculdades!
7. Conversando com os pais
Com relação aos pais, seria necessário sensibilizá-los para este período peculiar da vida de seus filhos clareando em grupos de discussão esta visão mais atual do processo de escolha, da adolescência como um todo, das suas angústias quanto ao futuro de seus filhos (e ao deles próprios) e das pressões mais ou menos conscientes que fazem em relação a eles. É freqüente ocorrerem confusões entre suas frustrações e as expectativas que tem em relação aos filhos.
O principal seria trazer a família para participar criativamente deste processo. Como? Seria de grande ajuda se alguns pais (ou professores) se dispusessem a ser entrevistados pelos próprios alunos. Para que esta experiência seja proveitosa, é necessário que os jovens sejam agrupados segundo seus interesses e, posteriormente, reflitam com o orientador profissional responsável, as questões mais relevantes a serem apresentadas ao entrevistado. No momento seguinte, estas entrevistas poderão ser publicadas (se houver o consentimento do entrevistado) e os outros jovens que trabalharam junto a outros profissionais, poderão também tomar contato com as outras experiências promovidas pela escola.
Outro modo de participar seria acompanhar (e estimular) a realização das pesquisas de seus filhos junto aos veículos já citados: Internet, YouTube, livros, revistas, Guia do estudante etc. O objetivo é participar sem interferir, estimular sem pressionar, informar sem distorcer, respeitar a individualidade sem se distanciar. Mais uma vez, a ideia é acompanhar o jovem que escolhe.
8. Conversando com o jovem
A primeira atividade do orientador profissional é exatamente esta que deixei por último: conversar com o estudante que vive o conflito em relação a escolher a profissão.
Este, como qualquer projeto a ser desenvolvido na escola, precisa estar calcado no interesse e nas necessidades dos alunos. Por isso, eles devem ser previamente consultados a respeito. Seus temores e sugestões devem ser atentamente ouvidos, acolhidos e atendidos sempre que possível.
A viga mestra deste programa de orientação profissional nas escolas é dada pela teoria e pela vivência clínica do psicanalista responsável mas, o dia-a-dia e a implementação das atividades só poderá acontecer a partir da integração com a comunidade escolar, equipe, pais e adolescentes.
9. BIBLIOGRAFIA
1. Bohoslavsky, R. – Orientação Vocacional: a estratégia clínica. São Paulo: Martins Fontes, 1977.
2. Aberastury, A. y Knobel, M. – La adolescencia normal. Buenos Aires: Paidós, 1971.
3. Levisky, D. L. – Adolescência: Reflexões Psicanalíticas. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995.
4. Winnicott, D. W. – Privação e Delinqüência. São Paulo: Martins Fontes, 1987.
5. Mahler, M. – O Processo de Separação–Individuação. Porto Alegre: Artes Médicas, 1982.
6. Bion, W. R. – Estudos Psicanalíticos Revisados.Rio de Janeiro: Imago, 1988.
7. Levenfus, R. S. et al – Psicodinâmica da Escolha Profissional.Porto Alegre: Artes Médicas, 1997.
8. Winnicott, D. W – O Brincar e a Realidade.Rio de Janeiro: Imago, 1975.
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