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O jovem e a escolha profíssional – Como a escola, os pais e os amigos participam deste processo

Por Alba M. R. Sewaybricker Benito (2001)


Meu objetivo hoje é refletir com os jovens, pais e educadores aqui presentes, algumas questões relativas ao processo de escolha profissional. Espero clarear as ideias principais desenvolvidas pela Psicanálise para a compreensão da adolescência, especialmente aquelas relativas à formação da identidade. Por exemplo: fatores inconscientes, história de vida, figuras de identificação, valores, interesses despertados, aptidões, aspirações e expectativas depositadas neste jovem.

Para ilustrar, vou recorrer a um filme chamado Encontrando Forrester, bastante adequado para o contexto de uma Feira de Livros, pois se trata da história de um jovem escritor que encontra, convive e aprende com um renomado escritor.

Adolescência Enquanto Crise

Trata-se de uma crise necessária que pode (e deve) ser acompanhada pelos pais e educadores de uma maneira construtiva, favorecendo o desenvolvimento desses jovens com suas potencialidades e seus interesses. Isto os conduzirá ao universo do mundo adulto de uma maneira mais autêntica, autônoma e consciente. Assim, a tão ansiada emancipação poderá ser conquistada, em grande parte, através de uma boa escolha profissional.

Escolha Profissional Como Processo

Escolher a profissão não é sinônimo de descobrir a vocação ou a aptidão para algo. É muito mais do que isto. É escolher um modo de vida, um jeito de estar no mundo, um status social, uma identidade.

A história de vida do indivíduo está em jogo com todas as identificações, os fatos marcantes, os valores, as expectativas (suas e dos outros), os interesses, enfim, o passado e o presente.

Trata-se de construir um projeto de vida, um plano para o futuro, pessoal e autônomo. Ninguém tem o direito e nem o poder de decidir pelo outro.

É fundamental salientar que o contexto em que vive este jovem – sua realidade, sua família, seus amigos – é de extrema importância. Sem dúvida, eles participarão de todo o processo, mas preferencialmente sem interferir ou influenciar; mas sim acompanhando, se mostrando interessados, buscando informações relevantes e conversando sempre que o jovem quiser.

É um exagero não tocar no assunto da escolha para não influenciar, como também é exagero só falar neste assunto o tempo todo, pressionando demais o jovem e deixando-o ainda mais angustiado. Escolher a profissão parte de um processo de busca tanto de auto-conhecimento como de informação e visa à elaboração de um projeto de vida.

Poeta Espanhol Antonio Machado

Este poeta nos diz em um de seus versos:

Caminhante não há caminho.
Faz-se o caminho ao andar.

Isto ilustra bem o que quero dizer a vocês sobre o processo de escolha:

  • Não há nada pré-definido;
  • O passado, as pegadas e a trajetória importam muito;
  • Os passos seguintes irão definir o rumo que se vai tomar;
  • Seu percurso será único, singular, como você.

Este Processo é Angustiante

Gostaria de dizer a vocês, jovens, que para escolher a profissão é necessário pensar sobre a sua vida, as incertezas, os conflitos e as dúvidas. Isto toma tempo! Mas você não está sozinho nessa. Seus amigos estão vivendo algo semelhante, embora alguns não revelem, por medo ou insegurança. Seus pais e professores também passaram por isso na juventude. É claro que as opções não eram tantas, mas havia a necessidade de escolher também e, muitas vezes, precisavam contrariar expectativas. De um jeito ou de outro, tinham seus projetos e buscavam realizá-los.

O Filme Encontrando Forrester

A construção da identidade pessoal (e profissional) se dá a partir dos vínculos que se estabelecem. Neste filme, um jovem – cujo nome é Jamal – que gostava de escrever e de jogar basquete, encontra um misterioso escritor – chamado Forrester – que era muito famoso, apesar de ter publicado um único livro. Inicia-se uma importante relação construtiva, onde ambos aprendem e se ajudam. Era uma verdadeira troca o que ocorria naquele relacionamento. Devo acrescentar, embora não seja nosso foco aqui agora, que este escritor era um homem recluso, traumatizado e alcoólatra. Cheio de problemas, sim, mas que resgatou valores importantes na relação com o jovem Jamal.

A História de Jamal

Um jovem pobre, que vivia no Bronx, se envergonhava de gostar de ler e escrever. Evitava ser visto como um bom aluno. Seus amigos eram os companheiros de basquete. Sua família, composta apenas pelo irmão e a mãe, era muito amorosa e compreensiva. Os irmãos, apesar de possuírem interesses bastante diversos, eram muito próximos e, até mesmo, cúmplices.

Forrester já havia observado Jamal jogando basquete na quadra próxima ao seu apartamento. Os jovens também já tinham notado que alguém os observava, mas não queria ser visto, e o apelidaram de “Window”. Como é típico da adolescência, desafiaram Jamal a invadir o apartamento de Forrester. Ele aceitou o desafio. Ao entrar, constatou que havia muitos livros e artigos ligados ao beisebol. No entanto, o jovem se complicou no momento em que o escritor o surpreendeu e, ao fugir, acabou esquecendo sua mochila com seus escritos no apartamento dele.

A partir deste incidente, iniciaram um relacionamento marcado pelo interesse mútuo, pois Forrester leu e comentou os escritos de Jamal, devolvendo-os em seguida.

Ponto de Virada

Jamal recebe um convite para se mudar para uma escola de elite, em Manhattan, onde suas habilidades no basquete teriam mais visibilidade e seus interesses literários poderiam se desenvolver bastante.

O conflito se apresenta logo de início, pois isto parecia ser uma “traição” ao seu grupo de amigos do Bronx, que dificilmente teria uma oportunidade como aquela. Nós sabemos que na adolescência o grupo é muito importante, é uma referência. Mexer com isto é muito complicado. Qualquer mudança vivida por um membro pode ser mal vista pelo resto do grupo. Por exemplo: começar um namoro, mudar de escola, conhecer outras pessoas estranhas ao grupo.

Forrester

O escritor o ajuda a decidir, favorecendo que o jovem reconhecesse sua potencialidade como escritor sem abandonar o basquete, muito pelo contrário. Forrester salientava e respeitava o interesse de Jamal pelo basquete. Enfatizou que naquela escola ele teria mais visibilidade como jogador também, o que era verdade.

Os Obstáculos no Novo Ambiente

O jovem encontra bons amigos, mas também algumas pedras pelo caminho. Uma delas, um professor de literatura, escritor frustrado, que duvidava do talento de Jamal. O professor Crawford não admitia que um aluno o questionasse ou demonstrasse algum talento especial para a escrita. A inveja, quando não transformada em admiração, se torna uma questão complicada nos relacionamentos familiares, escolares ou profissionais.

Bons Modelos de Identificação

Além dos membros de sua família e do vínculo com Forrester, Jamal desenvolveu outras boas relações com alguns novos amigos desta escola. Seu interesse pela literatura foi mais valorizado neste contexto. Se considerarmos o famoso escritor numa função semelhante à de um professor, Jamal contou com o acompanhamento de seus familiares, de um professor e de alguns de seus pares no processo de escolher sua profissão. Isto é essencial.

Outras Questões se Apresentam

Após este breve desvio, gostaria de retomar alguns pontos que, em geral, me apresentam como dúvidas:

Os testes de aptidão ajudam?

Penso que os testes não contribuem em nada, podendo até atrapalhar. É natural que o jovem esteja angustiado com a questão de escolher a profissão e delinear seu futuro. Assim sendo, é possível que ele se apegue ao teste como uma aparente solução. No entanto, os testes não prevêem o futuro; eles podem sim detectar alguns interesses do momento. Isto, em geral, os jovens já sabem. Então, qual seria a utilidade?

Na minha opinião, o jovem necessita de pessoas que o acompanhem neste processo, que se interessem, que indiquem onde ele pode buscar informação. Assim, a angústia se torna suportável e, mais, um bom estímulo para “ir à luta”. Se for necessária uma ajuda externa, que seja um trabalho de Orientação Profissional clínico, com alguém que acompanhe o jovem neste processo de escolher sua profissão e elaborar seu projeto de vida.

A vocação é tudo?

Também não concordo com esta visão. Uma pessoa pode ter muita aptidão para alguma coisa e, apesar disto, não querer trabalhar com aquilo. Outras coisas entram em cena além da aptidão, como por exemplo: a história de vida, as figuras de identificação, o tipo de vida que se pretende levar, aspirações etc. Escolher uma profissão vai muito além de detectar vocações ou aptidões.

Quais os recursos do jovem para escolher a profissão?

O principal é a sua capacidade de suportar a dúvida e pensar. Para isto, ele necessitará de um ambiente (familiar, escolar, amigos) que favoreça, acompanhando sim, mas não interferindo ou direcionando. Seria interessante poder contar com interlocutores interessados por ele, com instrumentos para buscar informação e com um olhar para dentro de si mesmo. O auto-conhecimento é essencial para atravessar este processo tão importante na vida de qualquer pessoa.

Quais as tendências do mercado?

Isto nos tomaria mais uma hora, pelo menos. Assim, vou apenas citar algumas tendências apresentadas por sociólogos e economistas:

  • Efeitos da globalização e dos processos de reengenharia;
  • As redes de conhecimento, entre elas a Internet, criam novas necessidades;
  • O crescimento desordenado das grandes cidades, gerando a criação de diversos serviços de bairros;
  • Valorização de profissionais multifuncionais (que desenvolvem várias habilidades), que têm visão estratégica e boa capacidade de comunicação;
  • Jornadas de trabalho menores (já presentes em alguns países europeus);
  • Valorização da subjetividade, da criatividade, do convívio social, da arte e da qualidade de vida (preocupações com a terceira idade);
  • Utilização do tempo livre para a atualização, o aprimoramento de idiomas e ampliação de horizontes.

Gostaria de agradecer a presença e a atenção de vocês, e agora podemos abrir para alguns esclarecimentos ou comentários.


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